”Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela, o que costuma.”
(Padre António Vieira em finais do século XVII).

No seu livro mais recente – Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água – António Lobo Antunes volta ao tema da guerra colonial, tema que já tinha tratado no segundo livro que publicou, “Os Cus de Judas”. Nesta obra literária conta a sua experiência de Alferes Miliciano Médico em Camunda-Angola, onde descreve os horrores a que assistiu. Para quem não sabe, informo que o escritor tem antepassados no concelho da Póvoa de Lanhoso, freguesia de Frades, donde o seu trisavô paterno emigrou para o Brasil com 12 anos. Não resisto a transcrever alguns excertos duma entrevista que, a propósito da publicação do seu último livro, deu a um jornal diário. Essas passagens serão reproduzidas em itálico.“A minha memória da guerra diz-me que foi uma experiência tão radical, tão violenta. Há sonhos recorrentes. Acontece-me acordar, em pé, a pedir armas: onde é que está a minha G3? Lembro-me de uma vez ter morrido um rapaz e disse para que o deitassem na minha cama, que ele estava só a dormir. Era a minha negação, uma espécie de loucura. Não aceitei a morte dele. Continuo a não aceitar. Morreu com um tiro na cabeça.”

E, mais adiante, continua: “Não é possível contar um quotidiano de guerra a quem não esteve na guerra. Os rapazes eram excepcionais. Alguns vinham ter comigo: amanhã vou guiar o rebenta-minas, quero fazer o testamento. Era o relógio, o fio, o anel. Nunca se queixavam. Eram extraordinários. Falamos (da guerra) com humor, mas também com saudade. A maior parte dos soldados eram pobres. Muitos nunca tinham tido sapatos.”

Estes extractos da longa entrevista dão uma ideia do quotidiano dos civis militarizados que estiveram em cenários de guerra na Guiné, em Angola e em Moçambique. Do medo, e da necessidade de o esconder, ou, pelo menos, disfarçar. Aprendemos o valor da solidariedade, da amizade, do companheirismo, da lealdade, do espírito de corpo, do sacrifício, valores que trouxemos para a vida civil.

O Estado descartou-nos, depois da guerra, sem qualquer tipo de reconhecimento público. Sem apoio psicológico, sem apoio médico diferenciado – o stress pós-traumático é ainda um flagelo em muitos de nós – e sem apoio social que compensasse e reconhecesse o nosso sacrifício. Mas, apesar do que passámos e da ingratidão da Pátria, fomos capazes de substituir a G3 que não cava, não martela, não produz literatura, pelas nossas ferramentas de trabalho civil. Constituímos família, providenciámos o seu sustento e crescimento. Agora, quando nos juntamos nos vários encontros que promovemos, exibimos, com orgulho, as nossas companheiras – algumas já o eram quando embarcámos – e os nossos descendentes. E eles, mais do que ninguém, também se orgulham de nós.

Resta-nos a satisfação do dever cumprido na tentativa de, no teatro de guerra, procurar salvaguardar a vida de todos nós. Mas, uma guerra, não se faz sem dor, sem sofrimento, sem mortos; estes, nós nunca esqueceremos. Mas é bom que os vindouros tenham algo de palpável e simbólico que lhes lembre que houve uma guerra, em África, na qual morreram, heroicamente, Portugueses. Por isso, nós, os heróis ainda vivos, nunca esqueceremos os nossos camaradas falecidos em teatro de guerra. Jamais aceitaremos qualquer atitude de arremedo de homenagem que não seja digna da memória destes heróis. Isso seria humilhar a memória desses bravos militares e defraudar a expectativa dos seus familiares.

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